quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

domingo, 6 de janeiro de 2019

Fashionite

Óscar Fuchs


Doença inflamatória e contagiosa que ataca o senso do ridículo. Pode ser aguda ou crônica.

Aguda: ataca em intervalos. O paciente passa a sentir a necessidade irrefreável de usar determinado tipo de vestimenta, acessório, corte de cabelo, etc. Após um período de convalescença, retoma a consciência crítica, acarretando a recuperação.

Crônica: também chamada de não tem mais jeito. O paciente vive em estado de doença, adotando toda e qualquer tendência que percebe na televisão e na internet. Nesse estágio, a doença já afetou o cérebro e não permite distinguir excessos (cores, comprimentos, exageros), levando o paciente a padecer de olha só aquilo!, de tem cada tipo! e de que figura!, males relacionados à falta de percepção da vítima de fashionite crônica.

A fashionite apareceu no século XIX, quando mulheres começaram a usar armações incômodas e exageradas sob as saias. A mania se estendeu para várias partes do mundo, dando início ao “modismo”. Com o avanço dos meios de comunicação, “modismo” se globalizou e recebeu influência de outras culturas, foi propagado e virou “fashion”, donde vem a fashionite.

A fashionite começou a ser transmitida por revistas, depois pelo rádio, pelo cinema, mais tarde pela televisão e hoje se propaga com virulência pela internet, por redes sociais, canais de youtube e programas de TV que divulgam notícias e fofocas de sub-celebridades, jogadores de futebol e pseudo-famosos, os principais vetores de transmissão da doença às massas.

Sintomas: Percebe-se a instalação da doença quando surgem alterações nos pelos do corpo (corte de cabelos ridículo, barba exagerada, pelos pubianos e sobrancelhas delineadas), na fisiologia (face distorcida, glúteos trabalhados no silicone, bíceps, tríceps e seios incompatíveis), alterações na fala e na inteligência, repercutindo na forma de vestir e se comportar.

Hospitais, clínicas e laboratórios farmacêuticos não estão preparados para lidarem com a doença. Quando se fala da fashionite, a tendência -­ palavra muito apropriada -­ é tornar-se uma pandemia. No entanto, não se tem ainda uma projeção de até que ponto a doença pode afetar as pessoas no futuro. Atualmente, rebolada até o chão gravada e transmitida para o grupo do watsap foi considerado o estágio mais avançado da doença.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Virtual

Óscar Fuchs

O telefone da Drica vibra. Manú enviou mensagem.
- Tudo bem?

Drica lê e responde para Manú:
- Bem. E você?

O telefone da Manú dá sinal e ela lê a mensagem de Drica. Então digita:
- Mais ou menos. O Rod e eu brigamos.

Drica, triste, pergunta:
- Snif. Por que, menina?

Manú escreve:
- Ele disse que eu só fico no celular, que não dou atenção a ele.

Drica é solidária:
- Chato. Nem é tanto assim.

E assim segue a troca de mensagens entre Drica e Manú:
- E agora, o que eu faço?
- Ah, Manú, fala com ele, ele tá aí do seu lado!
- Falar, como? Ele não quer conversar!
- Manda uma mensagem.
- Boa, 'miga! Agora ele tá no vídeo game e não vai ler. Vou mandar mais tarde.
- Nem te conto: sabe aquele gato que ficou me olhando aquela vez no Boulevard?
- Boulevard...deixa ver...ah, sim! Loiro, sarado.
- Esse mesmo. Tá aqui.
- Não acredito!
- Tá, sim. E tá me olhando de novo. Tá bem lá no fundo, encostado no balcão.
- Faz uma foto e me manda.
- Peraí. Deixa eu fotografar sem que ele veja. Pronto. Tô mandando.
- Recebi. Putz, é o cara mesmo!
- Coincidência, né?
- Super! Não deixa escapar dessa vez, né?
- Vou fazer de conta que vou ao banheiro, aí passo por ele.
- E se ele não falar nada pra você?
- É mesmo. Tenho que deixar cair alguma coisa.
- O velho truque da vovó!
- Pois, é. Mas o que? A vovó tinha o lenço.
- As chaves!
- E se ele não perceber? Ainda perco as chaves e não entro em casa.
- Pode ser a comanda do bar. Não, se você perder a comanda vai ter que pagar uma fortuna.
- O celular! Ele junta o celular e me devolve.
- E se não juntar? Você ainda perde o celular.
- Tem razão. Vou lá e dou um esbarrão nele, pronto.
- Isso, direto ao assunto!
- Então, vou indo. Vou desativar as mensagens, tá?
- Tá. Dá aqui sua bolsa que eu seguro.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O dia que Roberto Carlos atropelou o papeleiro

Óscar Fuchs


A história aconteceu na minha rua e é verídica.

Todo início de noite Gilnei, o papeleiro, passava recolhendo o lixo reciclável da minha rua. Vinha com seu carrinho de coleta pela Avenida Aureliano até chegar ao Bar do Vandi, sua “parada estretégica” ­- como ele definia -­ para um trago. Na verdade, ele vinha de várias paradas estratégicas ao longo do percurso. Como sempre, bebeu seu martelinho e na saída despediu-se com um aceno. Voltou à calçada e se acoplou outra vez a seu carrinho carregado de papelão.

Deu dois passos à esquerda e olhou para trás, para ver se vinham carros, quando foi lançado de volta à calçada, contra a parede do prédio. Um automóvel preto, luxuoso, grande e possante o atingira. Um pouco tonto pelo susto -­ ou pelos martelinhos -­, apesar do forte choque deu um riso e exclamou um “ôigale!”, enquanto tentava levantar.

Ao ouvir o estrondo da batida, o Bar do Vandi inteiro saiu à rua e viu o Gilnei ali, se erguendo apoiando-se na parede. Acontece que não era apenas um carro luxuoso e preto, mas uma fila deles! Ao darem com o papeleiro levantando-se e aquela escolta de automóveis pretos parados em fila dupla, concluiram de pronto que um grã-fino atropelou o papeleiro. E vieram como um cardume em defesa do Gilnei.

O papeleiro não se vitimizou. Ao ser amparado pelos amigos do boteco -­ bêbado é sempre solidário -­ , levantou os braços tranquilizando:

-­ Não foi nada, não precisa se preocupar...

Da caravana de carros pretos sairam enormes seguranças, homens em ternos pretos, camisas brancas e gravatas também pretas. Cercaram o papeleiro que repetia “não foi nada!”, enquanto os bebuns solidários do boteco cobravam providências dos gigantes. Bastaria os grandalhões darem um tabefe e derrubavam todos num só golpe. Mas o pessoal do boteco não se rendia e exigia reparações.

-­ Tem que socorrer! -­ Proclamou Seabra com o dedo em riste no nariz do segurança.
-­ E olha o carrinho, tá todo torto. Tem que dar um carrinho novo! -­ Exclamou Moacyr.
-­ E vai pagar uma rodada pra todo mundo, não vai? -­ Perguntou Gabriel, num grau mais conciliador e alcoólico.

Foi nesse momento que abri o portão do meu prédio, vizinho ao Bar do Vandi, para depositar na rua meu lixo reciclável. O rebuliço perto da porta do bar chamou minha atenção. E foi aí que vi passar, vindo do outro lado, a dois passos de mim, de branco e claudicante, Roberto Carlos. Já tinha depositado as sacolinhas de lixo e tentava entender o que estava acontecendo. Roberto Carlos se aproximou do papeleiro e perguntou entre os seguranças:

-­ Tudo bem aí, gaúcho?

A turba ficou boquiaberta se entreolhando como que perguntando “Tão vendo o mesmo que eu?”. Alguns sacudiram o copo e perguntaram intrigados:

-­ O que o Vandi colocou aqui dentro dessa vez?

Ao ver de quem vinha a pergunta, Gilnei soltou um longo “aaaaaaiiiiiiiii”. Aquele que instantes antes garantia que “não foi nada!” e que dizia “não precisa se preocupar”, de repente estava indeciso entre se queixar ou levantar e abraçar o “rei”. Considerando a precária situação naquele momento de sua vida, optou pela primeira opção.

Os fregueses do Bar -­ todos agora na calçada -­, talvez pela elevada gradação alcoólica, retomaram a ofensiva exigindo para o papeleiro um atendimento compatível com a grandeza do astro. O papeleiro, colado à parede se contorcendo de dor, queixava-se:

-­ Aaaaiiiii meu cotovelo!
-­ Ué, mas até agora você dizia que não sentia nada! -­ Inquiriu um dos seguranças.
-­ Foi de repente... aaaaaiiiiiii.

Os botequeiros em algazarra exigindo socorro imediato à vitima, os seguranças tentando afastá-los e o Gilnei se queixando:

-­ Aaaaaiiiiii.... minha costela!

O segurança garantia:

-­ Pode deixar que a gente vai cuidar de você,
-­ Obrigado...aaaaaiiiii.....meu fêmur.....
-­ Mas aí é o quadril!
-­ Viu como deslocou? Aaaaiiiiiii... meu baço... -­ E apalpava a garganta.

Percebendo que não fora nada grave, Roberto Carlos passou por mim outra vez e voltou para um dos carros pretos.O segurança abriu a porta e ele entrou no segundo veículo da comitiva. A caravana arrancou, menos um dos carros que ficou para socorrer o papeleiro. Enquanto ele fingia várias fraturas expostas, levaram-no amparado até o automóvel, abriram a porta, colocaram-no no banco traseiro e arrancaram.

Há algum tempo reencontrei o Roberto Carlos ­- o Gilnei, que assumiu o apelido ­- bebendo outra vez seu martelinho no bar do Vandi. Contou que naquela noite o levaram ao Pronto Socorro:

-­ Andei naquele carrão! -­ Exclamou numa gargalhada.

Pagaram todos os exames e todos os tratamentos que ele precisava:

-­ Até pra doença que eu não tinha!

-­ Qual doença? -­ Perguntei.

-­ Alcoolismo. Vê se pode, eu alcoólatra!

Depois o levaram pra casa, arranjaram-lhe um emprego e ainda contribuiram com uma cesta básica. Mas o maior problema foi com sua mulher.

-­ É mesmo? Por quê? -­ Perguntei.

-­ Até hoje ela me joga na cara que eu não pensei nela, que eu devia ter exigido mais coisas.

-­ Que coisas?

-­ Um ingresso pro show e um autógrafo.

Gilnei voltou a carrinhar, não gostou do serviço num frigorífico. Essa foi a última vez que o ví. Deve estar por outras ruas contando sua história toda vez que alguém lhe pergunta:

-­ Por que seu apelido é Roberto Carlos?

-­ Porque uma vez...
          
N.A.:
1. Seabra, um dos frequentadores do Bar do Vandi, continua frequentando o boteco e sempre que alguém pede que ele confirme a história, cobra uma dose de cachaça com Underberg pelo testemunho.
2. A “plaquinha” que ele colocou na árvore dizendo “Aqui Roberto Carlos Atropelou um papeleiro”, já apodreceu e caiu....mas a árvore continua ali, na frente da porta do meu prédio.
3. Roberto Carlos, nessa noite, fez um show no Gigantinho. Minha rua, onde aconteceu o acidente, é caminho para o local.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Tenho uma história

Óscar Fuchs


Gostam de uma boa história? Tenho uma ótima para lhes contar:
Se você estiver em Roma, em Istambul, em Nova York, em Madri, em Toronto, em Buenos Aires, em Hong Kong... Como você chamaria um taxi? Qual palavra você usaria? Levantaria a mão e gritaria:
- Taxi!!!

Lá em Montevidéu passei por isso. Foi naquele domingo da eleição: Tabaré versus Pou, esquerda contra direita. Chovia ... chovia.... cristo, quanto chovia!  Minha mulher e eu fomos a um restaurante próximo a um shopping e, sem querer, achamos aquele restaurante que a gente não encontrava e que estava recomendado no guia. Achamos!

Taxi em Montevidéu é difícil... imagina com chuva! Taxi em Montevidéu tem um vidro que separa passageiros do motorista... e tem uma “gaveta” na qual você “enfia” o dinheiro ao pagar a corrida. Só em “pesos” uruguaios.

Muita chuva, poucos taxis. Combinei com minha mulher: quando o taxi chegar, entre no banco de trás que eu entrarei no banco da frente, assim a gente se molha menos.

E assim, foi: sentei no banco da frente. A chuva batendo.. e minha mulher lá, no banco de trás, atrás do vidro, isolada. No banco da frente, ouvi uma música, volume muito baixinho... então perguntei aochofeur, em portunhol:
- Que estás ouvindo?
- Schubert.  – Respondeu ele, e completou - Prefiro Mozart, pero...

Não sou muito fã de Schubert, disse ele. Nem eu, disse eu. Como aquele colega trabalhador motorista de taxi, eu também prefiro Mozart. A partir daí, a chuva forte, ochofeur e eu falando sobre música. Pouco se enxergava, mas continuávamos rumo a nosso destino. Ele entendia tudo de música clássica. Seu pai fora músico e ensinou-lhe como apreciar. Nos deleitamos falando de Mozart, nosso ídolo. Ele fazendo o percurso, feliz da vida por poder conversar com alguém que compartilha sua paixão, Mozart, e eu também... mais feliz ainda!
Perguntei se ele sabia de onde vinha a palavra “taxi”, já que trabalhava nisso e era seu “meio-de-vida”. Imediato e enfático, respondeu: “SIM!”
E contou-me toda a história que eu já sabia, mas que ouvi com extrema atenção e respeito porque, sem dúvida, ele é muito mais digno de contá-la do que eu. Segue a história:
“Naquela época, à época de Mozart, músicos e compositores eram consideradosmeros instrumentos do Estado, serviam apenas para deleitar o rei e distrair o povo.
Para sobreviver, compositores tinham que se submeter e vender seus trabalhos, daí a importância de ser Kepellmeister, pois sendo o mestre do rei, mais prestígio se teria e, portanto, mais se poderia cobrar.
Em Viena havia um barão muito rico. Ele alugava coches ou charretes. As pessoas que queriam ir a uma ópera ou a um concerto da corte, tinham que fazer isso em grande estilo. Porém, muitas famílias não tinham condições financeiras ou de espaço para manter uma charrete, uma carruagem ou um coche. Percebendo isso, esse barão passou a alugar coches para aquelas pessoas que queriam ir ao concerto do rei e que não podiam chegar lá a pé. Questão de imagem!
Esse barão tinha uma filha e ela completaria quinze anos em breve (lembram da tradição das debutantes?). Ora, para todas as ocasiões especiais, mandava a tradição e o ritual da corte que se fizesse “algo especial”, enfim, que o paiencomendasse uma peça, uma música, que seria a marca daquela cerimônia. No caso, uma adolescente que está se tornando mulher.
Mozart fez muito isso, para sobreviver. Até música para circenses ele fez! Bem, Mozart conseguiu ser contratado para fazer a peça de debutante da filha daquele barão riquíssimo e nobre! E não fez por menos.
Mozart criou uma música que, até hoje, é citada como uma das maiores maravilhas do mundo: Eine Kleine Nachtmusik. Isso significa, numa tradução literal, “um tipo de música noturna”. Já, numa tradução livre, seria: “uma musiquinha na noite”. Que “musiquinha”, hein?”
Tenho certeza que qualquer pessoa que ouvir apenas a introdução, vai identificar: https://www.youtube.com/watch?v=Ytpj0lg5Cmk&list=RDYtpj0lg5Cmk#t=0
Não terminou ainda! Imagine que você esteja saindo de casa para assistir a um concerto de Mozart. Imagine que você vai pegar um taxi... você tem que pegar um taxi para ir a um concerto no centro da cidade! Imagine que esse concerto seja a obra Eine Kleine Nachtmusik e você reclama porque não consegue achar um taxi. Pergunto: sabe por que esse veículo que você está esperando ansiosamente e do qual você precisa tanto, se chama taxi? Talvez nem o próprio motorista saiba.
Pois bem, você só vai chegar a esse concerto (Eine Kleine Nachtmusik), com toda a sua pompa e circunstância (Elgar), usando aquele motorista de taxi. Ele só está ali para levá-lo onde você quiser. Pois aquele barão que encomendou aquela música a Mozart, para sua filha que fazia 15 anos, que alugava carruagens e coches, que fazia parte da corte... se chamava Barão Von Taxi!  Por isso, em qualquer parte do mundo que você esteja, “taxi” é uma palavra universal, por causa daquele Barão! Mas, sobretudo, por causa de Mozart, que nem viveu o suficiente para saber disso.”

E chegamos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Anjo


(Óscar Fuchs)


Reencontrei meu ex-vizinho, Jorge, a quem passei a chamar de minha memória externa E.X.T., porque ele vive me relembrando coisas de nossa época infante e adolescente. Jorge puxa um fiozinho e lá vêm outras centenas de memórias se arrastando até meu cérebro que eu pensava já estar inválido, numa cabeça de rodas.

Há poucos anos meu sobrinho perguntou-me o que é nostalgia. Respondi que ele só saberia o que é nostalgia quando tivesse vivido o bastante para saber o que é nostalgia. Ao encontrar o Jorge me deu nostalgia. Sinal de que já vivi bastante, talvez demais. Meus quinze ou dezesseis anos foram naquela época em que havia apenas a palavra adolescência para designar quem tinha entre quinze e dezoito. Antes dessa idade ainda era criança. Agora temos pré-adolescentesadolescentesinício da idade adulta.

Também na minha adolescência — o que seria hoje a pré-adolescência — a gente brincava mais que assaltava, consumia escondido bala e pirulito ao invés de crack, tomava emprestado carrinho de lomba ao invés de roubar automóveis... mas tudo isso foi lá no século XX.

O bairro Petrópolis ainda era chamado de fim-da-linha. O sonho de qualquer um de nós, Jorge, eu e outros adolescentes era poder entrar no Cine Ritz para assistir a um filme proibido para menores de dezoito anos. Certa vez o padre da Igreja São Sebastião, defronte ao Cine Ritz, queixou-se aos vizinhos:

— É uma vergonha! Aqueles cartazes de cinema com mulheres seminuas! Imagina devotos saindo da igreja depois do culto verem aquilo, esquecem todo o sermão! — Reclamou.

Então meu irmão mais velho rebateu:

— Pois é, padre. Mas imagina o sentimento de culpa de quem está saindo do cinema e dá de cara com a sua enorme igreja.

O padre sorriu e saiu vibrando com a assertiva.

Só que isso aqui não é uma resenha nostálgica e sim uma homenagem tardia. Apenas contei tudo isso para situar a época e o local.

No que chamávamos de fim-da-linha — Petrópolis —, todos conheciam a Livraria e Papelaria Louvre, ao lado da igreja, onde eu era balconista. No Louvre eu lia todos os lançamentos. Os livros vinham envoltos em plástico para que não fossem manuseados e folheados. Hoje eu posso confessar, pois o crime já expirou: eu tirava com todo cuidado o plástico dos livros, lia, depois recolocava o plástico e os punha de volta na prateleira. Ninguém desconfiava! Assim descobri Garcia Marquez, Humberto Eco, Kafka, Nitsche, Verissimos, João Ubaldo, Rubem Fonseca, Millôr e tantos outros que ainda nem entendia direito e nem há espaço para citar. Lendo aquelas maravilhas pensei que eu também teria coisas para contar e tive o sentimento de escrever as poucas coisas que um menino teria para escrever.

Havia no Louvre — a livraria, que hoje também poderia ser museu — uma máquina de escrever — que já é peça de museu. Papel ofício era o que não faltava e, tempo, eu teria entre um freguês e outro. Levei a máquina de escrever para trás de uma estante e passava horas e dias tlec-tlec-tlec no intervalo entre o atendimento aos clientes.

Certo dia estava eu a tlec-tlec-tlec lá no fundo da loja quando entrou uma senhorinha com seus cabelinhos brancos e uma sombrinha fechada na mão. Foi recebida com deferência por meu irmão mais velho. Na mesma hora saí correndo de meu escritório para atendê-la, mas meu irmão fez um gesto com a mão dizendo deixa que eu atendo. Fiquei feliz por poder voltar a minha crônica sem ter o raciocínio interrompido.

A simpática senhorinha já estava com seu pacote de folhas pautadas, lápis e outras coisas que não lembro, quando perguntou quem tanto teclava no fundo da loja.

— Meu irmão. — respondeu ele.

— E o que ele escreve? — quis saber ela.

— Não sei, nunca vi.

— Posso falar com ele? — pediu.

Então ela se encaminhou até o fundo da loja e me deu um Olá!

— O que estás escrevendo? — perguntou-me.

Totalmente sem jeito e intimidado, envergonhado de minha pretensão de escrever alguma coisa, respondi dispersivo:

— Ah, umas coisas.

Para meu desespero, na iminência de que alguém veria meus escritos secretos e pretensiosos, ela pediu:

— Posso ver?

Sem alternativa ante a simpatia, a amabilidade e a candura dessa mulher, peguei reticente algumas coisas que havia escrito e lhe entreguei. A senhorinha passou os olhos por minutos e pediu de um jeito que era impossível dizer não:

— Posso levar para ler melhor?

Como negar? Coloquei em um envelope pardo e entreguei a ela. Agradeceu, despediu-se e se foi. O envelope pardo e as folhas de ofício foram descontadas do meu salário.

Alguns dias depois ela retornou. Veio direto a mim, parou à minha frente, tirou meus escritos do envelope e me entregou. Estavam todos rabiscados a lápis, com sinais ininteligíveis, palavras riscadas e anotações nas margens do tipo: Não escreva whisky como é no original. Está correto, mas uísque fica mais coloquial. E explicou:

— Está muito bom. Fiz algumas anotações e correções. Mas deves continuar. Continua escrevendo e lendo muito. — Falava assim, usando o tu como pronome.

Para desespero de vocês segui o conselho, continuei escrevendo. E lendo. Hoje, mesmo que isso não me renda nada, mesmo que seja difícil tentar alegrar a todos, mesmo que o politicamente correto me impeça de dizer um monte de coisas, mesmo que não seja bem feito, faço e o faço só porque gosto.

Porém, se vocês sentem-se constrangidos ao ver meus erros ou pensam que é um desperdício de tempo eu continuar tentando, não culpem a senhorinha, pois ela estava apenas exercendo sua função de Anjo. “Esse anjo” — como se refere a ela Lya Luft — passou pela minha vida — ainda está! — e me ensinou que passar conhecimento, ajudar, ser simples, dar-se, é o que faz as pessoas sentirem gratidão e nostalgia quando pensam em nós. Foi o que senti, gratidão e nostalgia, quando minha memória externa E.X.T. me fez pensar nessa senhorinha chamada Dona Mafalda Verissimo*.



*Quem foi Mafalda Verissimo: Mafalda Halfen Volpe Verissimo, viúva do escritor Erico Verissimo, mãe de Clarissa e do escritor (N.A.: também jornalista) e cronista Luís Fernando Verissimo, nasceu em Pelotas no dia 18 de junho de 1913, filha de Vicente e de Emma Halfen Volpe. Tinha nove anos quando a família se mudou para Cruz Alta e nesta cidade conheceu Érico, com quem se casou e passou a viver em Porto Alegre. Adendum posterior: esqueci de dizer que Dona Mafalda fora professora... típico de um anjo, não?

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Progressistas?