CHEGOU!!! CRÔNICAS & RABISCOS, em março, grande lançamento! Crônicas de humor, edição ilustrada

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Os gsepgmolj

(Óscar Fuchs)
Revelação: há algum tempo venho tendo contato direto com extraterrestres. Não contei a ninguém porque no início eles me pareceram meio falsos: barba grisalha, blazer e gravata borboleta, gordinhos, sentados na mesa do boteco com um microfone e uma caneca. Só depois me informaram que haviam pego como modelo humano o Jô Soares. Hoje os levo mais a sério. Já perguntei por que vieram à terra, por que a América, por que o Brasil, por que eu e, principalmente, por que aqui no Boteco do Vandi? Apenas agradeceram por ter dado o endereço completo, pois estavam perdidos havia anos.
Atualmente basta sentar-me a uma mesa do Boteco do Vandi por alguns minutos que eles aparecem. É o nosso código de contato. Às vezes aparecem mesmo quando não quero falar com eles.
— O que vieram fazer aqui? — Pergunto.
— Ora, você sentou aqui e...
— Mas eu só vim tomar um cafezinho.
Vigilantes, olham em volta e cochicham:
— Você está querendo falar alguma coisa secreta, é isso?
— Não, não! Eu só entrei aqui pra tomar um cafezinho mesmo! —Explico.
— Tem certeza? — Perguntam.
— Claro que tenho! Não posso vir no boteco nem para tomar um cafezinho?
Enfim, tive que deixar de freqüentar meu boteco preferido. Só posso ir lá quando realmente quero falar com eles. Até para comprar cigarros tenho que ir disfarçado. Quanto ao disfarce deles, está bem mais realista que o modelito de Jô Soares. Agora chegam no boteco com aparências diferentes entre eles, cada um pede uma bebida e alguns chegam ao realismo de irem embora cantando alto e tropeçando nas pernas num preciosismo de interpretação do disfarce, eu acho.
Dizem vir de uma parte desconhecida do universo, algo como vrlizov, mas fiquei na dúvida se estavam se referindo ao seu planeta ou à vodka do Vandi, que não é lá essas coisas. Além disso, quando chegaram à Terra adotaram o Google como tradutor e isso já lhes trouxe muitos inconvenientes. Certa vez tentaram enviar ao governo americano uma mensagem dizendo “We wanna invite you... (queremos convidá-los...)” e o Google mandou que escrevessem “Aí, vamo invadi ôceis!”. Sua civilização se chama gsepgmolj, ou mais ou menos isso, pois não sei se o idioma deles é complicado assim mesmo ou se já estavam enrolando a língua de bêbados.
Precisava fazer uma consulta aos gsepgmolj, então ontem fui ao Boteco do Vandi e sentei a uma mesa. Em seguida um deles saiu do banheiro:
— Puxa, você apareceu rápido! — Surpreendi-me.
— To aqui desde nove da manhã. — Disse ele cambaleante depois de um arroto.
Logo apareceram os outros e sentaram-se comigo. Perguntei-lhes se tinham algo a ver com o que está acontecendo.
— Nada. —Responderam. — Ele se iludiu e ela vai dar o golpe.
— De quem vocês estão falando?
— Do William, o príncipe. Ele é uma graça, mas ela... — Olharam para o teto enquanto balançavam negativamente a cabeça.
— Não, estou me referindo a tudo o que anda acontecendo ultimamente no planeta Terra, terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas.
— Ah, isso? Não, não temos nada a ver.
— Então somos nós os culpados? — Perguntei.
— Claro que não, — responderam com desdém — vocês não são tão importantes assim.
— Mas, a poluição, o aquecimento global e tudo mais? — Perguntei.
— Ora, Terráqueo, tudo isso vai acabar com vocês, com a raça humana, mas o planeta vai continuar aqui por muito tempo ainda. Se será igual como é hoje, ou se não tiver mais florestas, ou se não tiver mais atmosfera, ou se não tiver mais água, ou se for uma bola de gelo, ou se for uma esfera desértica, ainda assim ele existirá, continuará orbitando aqui ou em outro sistema qualquer do universo. Já vocês, acabaram. Tudo o que o planeta faz ou deixa de fazer é por vontade própria, vocês são insignificantes.
— Mas...
— Terráqueo, é petulância e arrogância pensarem que vocês são mais necessários que o planeta.
Então levantaram-se, foram até o balcão, pegaram seu companheiro que estava dormindo todo babado sobre o balcão e o arrastaram pendurado pelos braços. Ao passarem por mim fizeram uma última pergunta:
— Terráqueo, onde é o AA mais próximo?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

...Eles passarão...




domingo, 17 de abril de 2011

ABL



A lista - Parte III - Finalmente, o fim.

(Óscar Fuchs)

Escândalo da violação do painel eletrônico - A prova material


Na falta de uma cópia da lista surrupiada do painel, a fita degravada pelo perito Ricardo Molina contém uma confissão de ACM (Isto É, 25/04/2001)


Como eu estava contando é uma frase muito usada pelos detetives. Mas não sou um detetive comum, como os outros. Como no sentido de que os engulo, de que sou muito superior a eles. Sou original em tudo e, como eu estava contando, nós detetives temos essa vicissitude de relatar nossas aventuras em pedaços. Como eu estava contando, recebi essa maldita lista e tratei de descobrir do que se tratava antes que me maltratassem. Fui ao escritório dos gêmeos Domingos e Feriados, que não poderiam me revelar nada por enquanto. Com a lista veio um bilhete que dava instruções e.... não vou repetir tudo, leia as postagens anteriores, pô!
Já era hora de saber algo mais sobre essa lista e optei por seguir as instruções do bilhete que veio com a lista. Fui ao hotel Royal e sentei-me, ansioso, na recepção. Meu nervosismo era grande, mas como todo detetive experiente, tinha que passar despercebido. Acendi um cigarro, depois outro e tentei aparentar calma e descontração enquanto fumava os dois cigarros. As horas passavam e nada acontecia. Até 13 horas eu roia as unhas, mas elas acabaram e passei a roer a falangeta do dedo médio.
Engoli o coração que estava saindo pela boca e, descontraidamente, tentei ler o jornal de cabeça para baixo. Não consegui, então inverti a posição. Tranqüilo e equilibrado, fumando meus dois cigarros, roendo meu dedo e lendo o jornal plantando bananeira, vi um homem se aproximar. Seria ele? Não, era apenas um funcionário do hotel pedindo que me comportasse. Ri para ele e exigi que parasse de caminhar no teto para conversarmos como homens equilibrados. Percebi que, por alguma razão, estava chamando muita atenção. Talvez por não estar andando no teto, como aquele bando de malucos. Desfiz a bananeira e fui até o bar.
— Me dá um gim com gelo. — Pedi ao barman.
Ele me serviu e começamos a entabular conversa. Seu nome era João. Com a conversa já toda no tabuleiro, pedi outro drink:
— Gim, me dá outro João com gelo.
Olhou-me intrigado e, imediatamente, percebi meu erro.
— Desculpe. Gelo, me dá outro João com gim. Não! Gim, me dá outro gelo com João. Também não. Peraí... ah, você entendeu.
O barman trouxe o gim com João, sorrindo.
— Obrigado. — Agradeci a meu amigo gelo.
Foi então que ouvi alguém ao meu lado dizer carambola. Saí do bar e me encaminhei para a poltrona, ao lado da mesa de canto. No caminho, com o canto dos olhos, vi que Hassam Guefrio era um homem enorme. Minha vontade foi de agarrá-lo com uma gravata surpreendente, dar-lhe um passa-pé indefensável, acertar-lhe um golpe de caratê na nuca e imobilizá-lo com uma chave infalível, pressionando seu rosto contra o chão enquanto ele gritasse “Está bem! Está bem! Eu confesso!”. Mas minha calma foi bem maior que minha impulsividade e ele era bem maior que eu. Sentei-me tranqüilamente na poltrona. Hassam veio em minha direção.
— E agora? O que faço? — Perguntei para meus botões.
Meus botões não responderam. É sempre assim, quando mais precisamos dos amigos, eles somem. O Matador aproximou-se e parou à minha frente. Impressionante o tamanho dele. Boquiaberto, exclamei:
— Caramba!
Hassam Guefrio, O Matador, balançou a cabeça negativamente, visivelmente irritado, e enfiou a mão direita por dentro do casaco. De posse de meu total controle emocional e físico, encolhi-me em posição fetal na poltrona e pensei “Pronto! Morri! Já era! Anos de contribuição ao INSS jogados fora!”. Ante a iminência da tragédia, usei meu último recurso:
— Bola. Caramba. Bolacaramba. Carambola! Carambola! Carambola! — Gritei aos prantos, de joelhos, implorando por clemência.
Hassam Guefrio tirou um envelope do bolso, levantou o abajur ao qual eu estava agarrado, na mesinha de canto, e depositou ali o envelope. Em seguida deu meia volta e desapareceu pelo saguão. Trêmulo, levantei o abajur, peguei o envelope e o abri. Outra mensagem:
“Otimov;
Vamos detonar uma bomba contra ACM. Quando precisar provar alguma coisa, use a lista. Mande relatório para Smov.
O Chefe”
Mais uma vez esse codinome repugnante, principalmente se lido de trás para diante. Detonar uma bomba contra ACM? Quem teria alguma coisa contra a Associação Cristã de Moços!? Quem faria uma maldade dessas? Por que alguém odiaria a ACM? Qual o número que somado indefinidas vezes, terá como resultado um segundo número cuja soma sucessiva de algarismos, terá como resultado o próprio número? Fui até o escritório de Domingos e Feriados com todas essas perguntas. Cheguei lá cansado com tantas perguntas penduradas nos braços, como se tivesse ido ao shopping e saído cheio de compras. Recuperei a lista. Em casa, tomei as últimas providências. A lista está lá no armário, com os biscoitos, um lugar fresco e seco. Como me orientaram — “Quando precisar provar alguma coisa...” —, toda vez que preciso provar algum prato diferente, uso a lista. Já comi vários pedacinhos dela, mas ainda não percebi diferença alguma. Fiz um relatório detalhado do que aconteceu, enfiei num envelope e escrevi o destinatário: Secretaria Municipal de Obras e Viação, Smov. Felizmente, até hoje, a ACM continua intacta. Talvez tenham cancelado os planos.
THE END

quarta-feira, 16 de março de 2011

DIMENOR - menino de rua

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A Lista - Parte II

Escândalo da violação do painel eletrônico - A prova material

Na falta de uma cópia da lista surrupiada do painel, a fita degravada pelo perito Ricardo Molina contém uma confissão de ACM (Isto É, 25/04/2001)

Nós, detetives, temos essa mania de contar as histórias em pedaços. Isso nos persegue. Somos nós sendo perseguidos pelas histórias em pedaços, as históias em pedaços sendo perseguidas pelo leitor, e o leitor sendo perseguido por... olhe para trás agora e você saberá. Como eu estava contando, recebi uma lista com nomes e saí à investigação. Bem, para saber mais detalhes basta ler a postagem anterior.
A lista, o que fazer com ela? Atravessei a rua e me dirigi ao escritório dos irmãos gêmeos. Eles sabiam tudo de nomes. Qualquer coisa que quisesse saber sobre nomes, devia procurar os gêmeos.
Quando a mãe estava grávida decidiram que o filho teria o mesmo nome do pai: Domingos. Mas, em vez de um, nasceram dois meninos. A mãe exigiu que os dois tivessem tudo igual: roupas, brinquedos, berços e chocalhos. Mas havia um problema: duas pessoas não podem ter nomes iguais! Então tentaram encontrar o nome mais parecido com Domingos que pudessem achar. Por isso, desde pequenos, os gêmeos se dedicam a pesquisar nomes e se tornaram especialistas. Para lá fui, ao único lugar onde poderia obter uma pista, o escritório dos gêmeos Domingos e Feriados.
Entrei no escritório e Feriados conversava com um rapaz enorme, forte, alto. Deixou o rapaz e me saudou:
— Olá! Como vai, meu amigo?
— Tudo bem. — Respondi, olhando para o rapaz — Podemos conversar em particular?
Feriados percebeu que não poderia haver testemunhas e chamou o rapaz com um aceno. O rapaz se aproximou.
—Este é meu filho, Feriados. Como é tradição na família, tem o nome do pai.
Cumprimentei o rapaz e, tentando ser simpático, usei a linguagem coloquial dos rapazes daquela idade:
— E aí, Feriadão?
Ele apertou minha mão e sorriu. Tirei a lista do bolso, desdobrei-a e entreguei a Feriados.
— Pode me dizer alguma coisa sobre esses nomes?
Feriados e Feriadão olharam a lista por momentos.
— Volte mais tarde, lá pelas 17 horas. — Disse Feriados.
— Ás 17 horas? Não pode ser. — Disse eu.
— Tá bem. Amanhã, de manhã.
— Não! — Disse eu.
— Tudo bem. Depois de amanhã, qualquer horário.
— Nem pensar!
— Ok. Então volte daqui a uma semana, no dia e horário que quiser.
— Você não entendeu, Feriados. Preciso saber sobre essa lista hoje, agora, nesse momento!
— Impossível. — Disse Feriados enquanto reexaminava a lista. — Temos muito trabalho. Estamos fazendo uma pesquisa para saber o que leva Luis Fernando Veríssimo a se apaixonar por mulheres cujos nomes comecem com “P”. Patrícia Pillar, Patrícia Poeta...
— É óbvio! Ele é um escritor e são as letras que o levam a escolher suas musas. Ultimamente ele está na fase do “P”!
— Fantástico! Como descobriu?
— Também já passei por isso. Mas parei na René Russo porque a letra seguinte era o “S” e a única pessoa famosa que existia era o Steven Seagal. Ele não faz meu tipo.
— Ótimo! — Disse Feriados. — Resolvemos esse enigma.
— E quanto ao meu enigma?
— Terá que me dar um tempinho para pesquisar. Volte hoje à tarde.
Despedi-me de Feriados e Feriadão e saí.

(To be continued... sempre quis dizer isso assim, em americano. Vai continuar na próxima postagem)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Psiu Kólogo, o barman

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