CHEGOU!!! CRÔNICAS & RABISCOS, em março, grande lançamento! Crônicas de humor, edição ilustrada

segunda-feira, 18 de abril de 2011

...Eles passarão...




domingo, 17 de abril de 2011

ABL



A lista - Parte III - Finalmente, o fim.

(Óscar Fuchs)

Escândalo da violação do painel eletrônico - A prova material


Na falta de uma cópia da lista surrupiada do painel, a fita degravada pelo perito Ricardo Molina contém uma confissão de ACM (Isto É, 25/04/2001)


Como eu estava contando é uma frase muito usada pelos detetives. Mas não sou um detetive comum, como os outros. Como no sentido de que os engulo, de que sou muito superior a eles. Sou original em tudo e, como eu estava contando, nós detetives temos essa vicissitude de relatar nossas aventuras em pedaços. Como eu estava contando, recebi essa maldita lista e tratei de descobrir do que se tratava antes que me maltratassem. Fui ao escritório dos gêmeos Domingos e Feriados, que não poderiam me revelar nada por enquanto. Com a lista veio um bilhete que dava instruções e.... não vou repetir tudo, leia as postagens anteriores, pô!
Já era hora de saber algo mais sobre essa lista e optei por seguir as instruções do bilhete que veio com a lista. Fui ao hotel Royal e sentei-me, ansioso, na recepção. Meu nervosismo era grande, mas como todo detetive experiente, tinha que passar despercebido. Acendi um cigarro, depois outro e tentei aparentar calma e descontração enquanto fumava os dois cigarros. As horas passavam e nada acontecia. Até 13 horas eu roia as unhas, mas elas acabaram e passei a roer a falangeta do dedo médio.
Engoli o coração que estava saindo pela boca e, descontraidamente, tentei ler o jornal de cabeça para baixo. Não consegui, então inverti a posição. Tranqüilo e equilibrado, fumando meus dois cigarros, roendo meu dedo e lendo o jornal plantando bananeira, vi um homem se aproximar. Seria ele? Não, era apenas um funcionário do hotel pedindo que me comportasse. Ri para ele e exigi que parasse de caminhar no teto para conversarmos como homens equilibrados. Percebi que, por alguma razão, estava chamando muita atenção. Talvez por não estar andando no teto, como aquele bando de malucos. Desfiz a bananeira e fui até o bar.
— Me dá um gim com gelo. — Pedi ao barman.
Ele me serviu e começamos a entabular conversa. Seu nome era João. Com a conversa já toda no tabuleiro, pedi outro drink:
— Gim, me dá outro João com gelo.
Olhou-me intrigado e, imediatamente, percebi meu erro.
— Desculpe. Gelo, me dá outro João com gim. Não! Gim, me dá outro gelo com João. Também não. Peraí... ah, você entendeu.
O barman trouxe o gim com João, sorrindo.
— Obrigado. — Agradeci a meu amigo gelo.
Foi então que ouvi alguém ao meu lado dizer carambola. Saí do bar e me encaminhei para a poltrona, ao lado da mesa de canto. No caminho, com o canto dos olhos, vi que Hassam Guefrio era um homem enorme. Minha vontade foi de agarrá-lo com uma gravata surpreendente, dar-lhe um passa-pé indefensável, acertar-lhe um golpe de caratê na nuca e imobilizá-lo com uma chave infalível, pressionando seu rosto contra o chão enquanto ele gritasse “Está bem! Está bem! Eu confesso!”. Mas minha calma foi bem maior que minha impulsividade e ele era bem maior que eu. Sentei-me tranqüilamente na poltrona. Hassam veio em minha direção.
— E agora? O que faço? — Perguntei para meus botões.
Meus botões não responderam. É sempre assim, quando mais precisamos dos amigos, eles somem. O Matador aproximou-se e parou à minha frente. Impressionante o tamanho dele. Boquiaberto, exclamei:
— Caramba!
Hassam Guefrio, O Matador, balançou a cabeça negativamente, visivelmente irritado, e enfiou a mão direita por dentro do casaco. De posse de meu total controle emocional e físico, encolhi-me em posição fetal na poltrona e pensei “Pronto! Morri! Já era! Anos de contribuição ao INSS jogados fora!”. Ante a iminência da tragédia, usei meu último recurso:
— Bola. Caramba. Bolacaramba. Carambola! Carambola! Carambola! — Gritei aos prantos, de joelhos, implorando por clemência.
Hassam Guefrio tirou um envelope do bolso, levantou o abajur ao qual eu estava agarrado, na mesinha de canto, e depositou ali o envelope. Em seguida deu meia volta e desapareceu pelo saguão. Trêmulo, levantei o abajur, peguei o envelope e o abri. Outra mensagem:
“Otimov;
Vamos detonar uma bomba contra ACM. Quando precisar provar alguma coisa, use a lista. Mande relatório para Smov.
O Chefe”
Mais uma vez esse codinome repugnante, principalmente se lido de trás para diante. Detonar uma bomba contra ACM? Quem teria alguma coisa contra a Associação Cristã de Moços!? Quem faria uma maldade dessas? Por que alguém odiaria a ACM? Qual o número que somado indefinidas vezes, terá como resultado um segundo número cuja soma sucessiva de algarismos, terá como resultado o próprio número? Fui até o escritório de Domingos e Feriados com todas essas perguntas. Cheguei lá cansado com tantas perguntas penduradas nos braços, como se tivesse ido ao shopping e saído cheio de compras. Recuperei a lista. Em casa, tomei as últimas providências. A lista está lá no armário, com os biscoitos, um lugar fresco e seco. Como me orientaram — “Quando precisar provar alguma coisa...” —, toda vez que preciso provar algum prato diferente, uso a lista. Já comi vários pedacinhos dela, mas ainda não percebi diferença alguma. Fiz um relatório detalhado do que aconteceu, enfiei num envelope e escrevi o destinatário: Secretaria Municipal de Obras e Viação, Smov. Felizmente, até hoje, a ACM continua intacta. Talvez tenham cancelado os planos.
THE END

quarta-feira, 16 de março de 2011

DIMENOR - menino de rua

Clique na imagem para ampliar

A Lista - Parte II

Escândalo da violação do painel eletrônico - A prova material

Na falta de uma cópia da lista surrupiada do painel, a fita degravada pelo perito Ricardo Molina contém uma confissão de ACM (Isto É, 25/04/2001)

Nós, detetives, temos essa mania de contar as histórias em pedaços. Isso nos persegue. Somos nós sendo perseguidos pelas histórias em pedaços, as históias em pedaços sendo perseguidas pelo leitor, e o leitor sendo perseguido por... olhe para trás agora e você saberá. Como eu estava contando, recebi uma lista com nomes e saí à investigação. Bem, para saber mais detalhes basta ler a postagem anterior.
A lista, o que fazer com ela? Atravessei a rua e me dirigi ao escritório dos irmãos gêmeos. Eles sabiam tudo de nomes. Qualquer coisa que quisesse saber sobre nomes, devia procurar os gêmeos.
Quando a mãe estava grávida decidiram que o filho teria o mesmo nome do pai: Domingos. Mas, em vez de um, nasceram dois meninos. A mãe exigiu que os dois tivessem tudo igual: roupas, brinquedos, berços e chocalhos. Mas havia um problema: duas pessoas não podem ter nomes iguais! Então tentaram encontrar o nome mais parecido com Domingos que pudessem achar. Por isso, desde pequenos, os gêmeos se dedicam a pesquisar nomes e se tornaram especialistas. Para lá fui, ao único lugar onde poderia obter uma pista, o escritório dos gêmeos Domingos e Feriados.
Entrei no escritório e Feriados conversava com um rapaz enorme, forte, alto. Deixou o rapaz e me saudou:
— Olá! Como vai, meu amigo?
— Tudo bem. — Respondi, olhando para o rapaz — Podemos conversar em particular?
Feriados percebeu que não poderia haver testemunhas e chamou o rapaz com um aceno. O rapaz se aproximou.
—Este é meu filho, Feriados. Como é tradição na família, tem o nome do pai.
Cumprimentei o rapaz e, tentando ser simpático, usei a linguagem coloquial dos rapazes daquela idade:
— E aí, Feriadão?
Ele apertou minha mão e sorriu. Tirei a lista do bolso, desdobrei-a e entreguei a Feriados.
— Pode me dizer alguma coisa sobre esses nomes?
Feriados e Feriadão olharam a lista por momentos.
— Volte mais tarde, lá pelas 17 horas. — Disse Feriados.
— Ás 17 horas? Não pode ser. — Disse eu.
— Tá bem. Amanhã, de manhã.
— Não! — Disse eu.
— Tudo bem. Depois de amanhã, qualquer horário.
— Nem pensar!
— Ok. Então volte daqui a uma semana, no dia e horário que quiser.
— Você não entendeu, Feriados. Preciso saber sobre essa lista hoje, agora, nesse momento!
— Impossível. — Disse Feriados enquanto reexaminava a lista. — Temos muito trabalho. Estamos fazendo uma pesquisa para saber o que leva Luis Fernando Veríssimo a se apaixonar por mulheres cujos nomes comecem com “P”. Patrícia Pillar, Patrícia Poeta...
— É óbvio! Ele é um escritor e são as letras que o levam a escolher suas musas. Ultimamente ele está na fase do “P”!
— Fantástico! Como descobriu?
— Também já passei por isso. Mas parei na René Russo porque a letra seguinte era o “S” e a única pessoa famosa que existia era o Steven Seagal. Ele não faz meu tipo.
— Ótimo! — Disse Feriados. — Resolvemos esse enigma.
— E quanto ao meu enigma?
— Terá que me dar um tempinho para pesquisar. Volte hoje à tarde.
Despedi-me de Feriados e Feriadão e saí.

(To be continued... sempre quis dizer isso assim, em americano. Vai continuar na próxima postagem)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Psiu Kólogo, o barman

Clique na imagem para ampliar

A lista - Parte I

(Óscar Fuchs)

Escândalo da violação do painel eletrônico - A prova material
Na falta de uma cópia da lista surrupiada do painel, a fita degravada pelo perito Ricardo Molina contém uma confissão de ACM (Isto É, 25/04/2001)

Só agora, passados os anos, posso revelar tudo. Nós, os detetives, passamos por essas vicissitudes. Não sei o que significa a palavra, mas gostei dela: sibilante, felina, sensual, os ésses carnudos, consoantes torneadas e bem feitas, pingos nos is brilhantes e vivazes, como se fossem estrelas. Porém, como acontece com todas as beldades que entram lânguidas em nosso escritório, temos que ignorá-las. É outra vicissitude. E eu a ignoro. Ignoro por completo, pois nem sei o significado. Afora isso, só me importuna a falta crônica de dinheiro e essa voz chatinha e anasalada que nós, detetives, usamos para contar nossos casos. Como esse:

Eu disse carambola e uma mão deslizou um envelope branco até mim. Não sei quem era, apenas deslizou o envelope sobre o balcão, levantou-se e saiu. Fiquei olhando para o envelope. Foi só isso. Havia sentado ao balcão da lanchonete e pedido a Topada meu suco preferido:
— Carambola.
Então o envelope deslizou pelo balcão até mim. Topada vinha trazendo meu suco e não reparou em nada. No caminho, pra variar, Topada deu uma topada e entornou metade do meu suco, por isso eu sempre pago só meio suco: Topada nunca consegue me servir o suco inteiro. Enquanto bebia meu meio suco de carambola, olhava para o envelope. Um envelope branco, sobre o balcão. Chamei Topada que deu quatro passos e uma topada em minha direção.
— Quié? — Disse ele, enfático.
— Acho que aquele senhor esqueceu isso aqui. — Apontei para o envelope.
Topada olhou para o envelope e sorriu:
— Ele estava sentado aí há duas horas. Disse que precisava entregar o envelope a alguém. Perguntou se alguém tinha falado “carambola” antes de ele chegar. Falei a ele que não conhecia esse tal de “Alguém”. Será que estava esperando você!? — Perguntou Topada. Depois deu uma topada de volta ao liquidificador.
Esperando-me? Por quê? Quem é ele? O que é essa coisa preta com asas no meu suco? Perguntei-me baixinho. Tão baixinho que nem eu mesmo ouvi, por isso não me respondi. Talvez o envelope pudesse me dizer alguma coisa. Fiz as mesmas perguntas ao envelope, mas ele também não disse nada, apenas ficou ali, calado, deitado sobre o balcão, branco. Foi então que Topada fez uma pergunta direta, objetiva, reveladora, pertinente e que me fez vislumbrar todas as respostas que procurava:
— Não vai abrir?
Nunca esquecerei a descoberta que fiz. Peguei o envelope e o dirigi para a luz. Com a luz por trás pude perceber que havia um papel dentro dele. E mais: pude inclusive ver os contornos desse papel. Descobri que as pessoas sempre colocam os envelopes contra a luz antes de abri-los para verem o que têm dentro! Trago essa descoberta pela minha vida desde então. Mas minhas perguntas iniciais ainda não tinham resposta.
Abri o envelope e extraí o papel. Era uma lista. Uma lista com vários nomes. Nomes que eu já vira ou escutara, pois não me eram estranhos. Ao lado de cada nome, um “sim” ou um “não”. Mostrei a lista a Topada:
— Topada, conhece algum desses?
Topada olhou detidamente a lista, lendo com atenção. Às vezes parava, olhava para o teto e coçava a cabeça, pensativo. Por fim, me devolveu a lista balançando a cabeça negativamente:
— Não.
— Nenhum? — Perguntei.
— Nenhum.
— Tem certeza? — Insisti.
— Olha aqui. Eu faço sucos há dez anos. Já fiz suco de quase tudo, alface, beterraba, repolho, gafanhoto, mas nenhum desses aqui. Suco de arruda!? Esse José Roberto deve ser doido!
—Deixa pra lá. — Tirei a lista da mão de Topada.
Olhei dentro do envelope e havia outro papel. Uma mensagem dizia o seguinte:

“Otimov;
Essa lista é muito importante, não permita que ela se deteriore. Deve mantê-la em lugar seguro. Para saber qual será sua missão, aguarde no saguão do hotel Royal. À tarde o agente Hassam Guefrio, O Matador, procurará você com a mesma senha: Carambola. Hassam deixará um envelope embaixo do abajur da mesinha de canto. Você o pegará depois que O Matador sair. Cumprida sua missão, envie relatório para Smov.
O Chefe”

Otimov. Deve ser um codinome. Otimov, um codinome repugnante, principalmente se o lesse de trás para diante. Manter a lista em lugar seguro para que não deteriore, como os biscoitos. Royal, como o fermento, hotel Royal. Hassam Guefrio, “O Matador”. Meu Deus! Onde estaria me metendo!? Mesinha de canto. Eu nem sabia que havia uma mesinha especial para se cantar! Peguei o envelope e saí apressado da lanchonete. Topada tentou correr até mim. Ouvi um baque e olhei para trás. Topada estendeu o braço e me entregou o papel:
— Você esqueceu a lista de sucos! — Disse ele, estirado na calçada.
A lista, o que fazer com ela? Atravessei a rua e me dirigi ao escritório dos irmãos gêmeos. Eles sabiam tudo de nomes. Qualquer coisa que quisesse saber sobre nomes, devia procurar os gêmeos.
(Como todo bom seriado, essa história continua no próximo capítulo ou, nesse caso, na próxima postagem.)