JH tinha a letra e pediu a música. Apresentamos no teatro incorporando Tom Jobim, Nara Leão, João Gilberto e Carlos Lyra... foi um sucesso. Curtam, com Fróide Explica, Só penso em sexo:
segunda-feira, 13 de abril de 2015
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Socorro!
(Óscar Fuchs)
Chegamos
a João Pessoa lá por 1985, meu amigo Afonso e eu. Qualquer dia conto a aventura
dessa viagem de ônibus através do Brasil, durante quatro dias e três noites.
Desembarcamos
e fomos levados para uma pensão que ficava numa ruazinha de Tambaú. Quando saímos
de Porto Alegre, os familiares recomendaram:
—
Juízo, hein!?
Como
manter o juízo se a pensão ficava a uma quadra da praia, em cima de um boteco,
ao lado de um prostíbulo e a frente de um cassino clandestino? Tivemos que
fazer muito esforço. Embora, talvez, não tenhamos nos esforçado o suficiente.
Logo
no primeiro dia na pensão, uma garota veio até nossa mesa sorrindo e perguntou:
—
Vão querer o quê de almoço?
—
Qualquer coisa. — Respondemos — Arroz, feijão, um bife...
A
garota se chamava Maria do Socorro, era filha da dona da pensão e todos a
chamavam apenas de Socorro. Muitas garotas em João Pessoa eram chamadas de
Socorro.
Afonso
e eu íamos à praia tentando paquerar umas meninas, mas nunca dava certo. Na
areia, planejávamos:
—
A gente podia fingir que está se afogando.
—
Pra quê?
—
O que a gente grita quando está se afogando?
—
Mmmm... Socorro! Socorro!
—
Então, dezenas de Socorros virão nos
salvar!
Também
nunca deu certo.
Voltou
Socorro da cozinha trazendo dois pratos e os colocou sobre a mesa. Pasmei. O
bife era uma posta de carne com a altura de uma tábua e o diâmetro de um livro.
Guri ignorante do Sul — lá do Sul mesmo! —, terra de muita e diversas carnes,
nunca imaginara um bife daqueles no Nordeste.
A
refeição foi incomparável. Tanto que repetimos o prato por cinco dias seguidos!
Mas, no sexto dia, parecia haver algo diferente. Chamamos Socorro:
—
O que é que tem de diferente hoje no bife?
—
Nada, é o mesmo de sempre. — Respondeu.
—
Impossível. — Disse Afonso — Hoje tá enjoativo.
Ela
gritou para a cozinha:
—
Mainha! Botou mais alguma coisa no bife?
—
Não! — Respondeu a dona da pensão.
Ficamos
nos olhando por alguns instantes e retomamos o almoço, mas intrigados.
Convencidos
de que o “mau paladar” fora culpa nossa — talvez o caldinho que consumíramos na
praia na manhã anterior, ou a cachaça que acompanhava o caldinho, ou os dois
combinados, ou até mesmo porque estávamos cheios
de trago! —, na manhã seguinte evitamos o caldinho. A cachaça, não mesmo.
—
Temos que eliminar os elementos um a um. — Justificamos.
E,
ao chegarmos para o almoço, pedimos o mesmo prato de arroz, feijão, um bife...
—
Argh!
—
Vixe! — Disse eu, já incorporando o falar local.
Ainda
enjoativo. Socorro jurou beijando-os-dedos
que era o mesmo de sempre, mas também ela ficou intrigada. Então, como se uma
luz lhe acendesse, abriu seu sorriso simpático e gritou para a cozinha:
—
Ah, mainha! É que eles tão acostumados com carne verde!
Já
tinha visto carne vermelha, carne rósea, carne marrom, carne branca, até carne
amarela, mas... Afonso e eu nos olhamos e perguntamos em uníssono:
—
Carne verde!?
—
É! — Explicou ela — Carne de vaca.
—
Isso aqui não é carne de vaca? — Ainda em uníssono.
—
Não. É de baleia.
Mais
tarde fiquei sabendo que a carne de baleia, por seu alto teor de gordura, pode
se tornar enjoativa, sobretudo para quem não é acostumado. Ainda boquiabertos,
exibindo pedaços de carne de baleia sobre a língua, grunhimos:
—
Mas... onde vocês compram carne de baleia?
—
Cabedelo. — Respondeu Socorro.
Impressionado,
passei a descobrir o que pude sobre a caça às baleias, que ocorreu no porto de
Cabedelo, na Paraíba, até 1987, quando foi proibida.
Hoje,
de volta ao sul há anos, quando amigos se reúnem para um churrasco, todos tentam
se vangloriar da carne mais diferente que comeram:
—
Já comi carne de tatu! — Diz um.
—
Pois, eu já comi carne de capivara! — Diz outro.
—
E eu, que já comi carne de cotia!? — Diz um terceiro.
Um
verdadeiro campeonato, como se fosse uma disputa, uma competição para saber o que
de mais estranho cada um comeu. Depois que todos terminam de arrotar a carne diferente que já
comeram, dou meu lance:
—
Já comeram carne de baleia?
Me
olham boquiabertos e perguntam:
—
De baleia!?
Em uníssono.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
O que é o William Homer?
(Óscar Fuchs)
Fazia
muito tempo que não prestava atenção no Jornal Nacional, da Globo. Até porque
não presta. Mas, dia desses, William Homer e sua parceira, Sandra (é isso?),
conseguiram chamar minha atenção: são tão “participativos”! Como eles conseguem disfarçar tanto e, ao
mesmo tempo, espalhar aqueles conceitos na maior cara-de-pau? São atores.
Aí,
fiquei pensando (coisa que o William Homer e a Globo não gostam: que as pessoas
pensem), mas fiquei pensando: e se eu
fosse o William Homer, será que eu teria a cara-de-pau
de divulgar aquilo tudo em rede nacional? Mesmo que seja um noticiário que não
tenha mais audiência, mas que me paga um ótimo salário e me dá um cargo
figurativo. Será que eu seria tão volúvel quanto William Homer?
De
repente lembrei de Marx — não o Karl, mas o Groucho: "Só há um forma de
saber se um homem é honesto... pergunte. Se ele disser sim, então você sabe que ele está mentindo." Ou algo desse
gênero, não lembro as palavras exatas.
Pois é. Se a gente perguntar ao William Homer, o
que será que ele dirá?
- Sou um jornalista.
Ora, jornalista ele não é, porque jornalista tem
uma ética — ou, teria — e jamais aceitaria imposição de seu empregador. A menos
que a ética do William Homer tenha ido pro espaço. Ou que a ética dele seja a
mesma de seu empregador, que a gente sabe que não tem ética nenhuma.
Na verdade, até admito isso, afinal, quem tem um
salário daqueles tem que fazer o que o patrão
quer... lembrei de Groucho Marx outra
vez: Há tantas coisas na vida mais
importantes que o dinheiro... mas, custam tão caro!”
Vai ver que é isso! William Homer tem que
sustentar a família que é grande e, nessa hora, não importa se há pessoas
morrendo na África ou na Palestina... “os meus primeiro!”
Há outra possibilidade: William Homer está
iniciando na carreira e, a gente sabe, todo iniciante faz e escreve bobagens
pois está apenas começando e... Lembrei agora de um ensinamento do grande — em
todos os sentidos, ele era diretor de redação e tinha dois metros de altura! — Jacinto
Barbosa, grande alma...
Eu era iniciante em jornalismo. Jacinto Barbosa mandou-me
cobrir uma manifestação. Fiquei cinco horas no local e... não houve
manifestação! Depois de uma tarde inteira naquela praça, voltei à redação. Fui
direto a ele e relatei:
— Olha, Jacinto, fiquei a tarde toda lá... e não
aconteceu nada!
— Nada?
— Nada. — respondi.
Então, com sua grande ética de jornalista, com
sua grande generosidade e com sua grande vontade de ensinar aos mais jovens,
ele me disse:
— Escreva. O que não acontece também é notícia.
Pois bem, depois disso tudo, de todas essas
filosofadas e interrogações, fico perguntando: O que é o William Homer?
E não há mais um
Jacinto Barbosa pra me responder com aquela sabedoria e simplicidade. Snif!
sábado, 24 de janeiro de 2015
Musiquinha noturna
(Óscar Fuchs)
27
de Janeiro. Nesse mundo vertiginoso, pra que lembrar disso, né? Mas é
aniversário de um dos maiores gênios da humanidade. Ele tinha entre 6 e 8 anos
quando fez uma opereta, a primeira de
suas obras magníficas. Daí para diante, revolucionou e criou maravilhas. Estou
falando de Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart. Na verdade,
afora algumas cartas que escreveu (sobretudo para quem ele fez A RAINHA DA
NOITE, sua irmã, porque – segundo ele - só ela poderia alcançar aquelas notas agudas à
época. Veja, ouça e delicie-se com https://www.youtube.com/watch?v=r37l5eNJOR0&list=RDr37l5eNJOR0#t=16https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl)
Enfim... na verdade, o Amadeus não
passa de uma lenda.. Aliás, ele só usou o nome Amadeus por sugestão de um amigo, em duas ou três cartas. Curioso é
que, em latim “Chrysostomus” significaria “devoto de Cristo”, pois ele
nasceu no dia de São Crisóstemo, e “Theophilus” significaria “amado por Deus”.
Daí o pseudônimo Amadeus... que ele
usou muito pouco.
Esse
gênio da música, o maior compositor de todos os tempos, foi admirado e tentaram
imitá-lo sempre. Um desses exemplos foi Beethoven, que declarou que o admirava e que queria fazer algo parecido. Quando Mozart “tentava” ser
Kepellmeister (mestre de
capela) em Viena, não conseguiu, porque
segundo o regente, Mozart não tinha capacidade. Quão sábio pode ser um regente!
Pois bem, no “estágio” para ser Kepellmeister,
Mozart teve que se submeter a cargos
mais baixos e, dentre as obrigações desses “cargos-mais-baixos”, cabia ao candidato a Kepellmeister dar aulas de música. Um dos alunos de Mozart era o
príncipe de Viena. Quanta responsabilidade! Se o príncipe não aprendesse nada,
a culpa era de seu professor, afinal o príncipe era um “designado por Deus”...
e não se podia cogitar a ignorância de um príncipe!
Num daqueles dias, o príncipe inquiriu seu mestre:
-
Her Mozart, quando poderei compor uma
obra?
Ao
que Mozart respondeu:
-
Ainda é cedo.
O
príncipe, então, retrucou:
-
Mas, Mestre, quando tinhas apenas oito anos já tinhas composto uma opereta.
Ao
que Mozart explicou:
-
É... mas nunca precisei perguntar a ninguém “como se faz”.
Gostam
de uma boa história? Tenho uma ótima para lhes contar:
Se
você estiver em Roma, em Istambul, em Nova York, em Madri, em Toronto, em
Buenos Aires, em Hong Kong... Como você chamaria um taxi? Qual palavra você
usaria? Levantaria a mão e gritaria:
-
Taxi!!!
Lá
em Montevidéu passei por isso. Foi naquele domingo da eleição: Tabaré versus
Pou, esquerda contra direita. Chovia ... chovia.... cristo, quanto chovia! Minha mulher e eu fomos a um restaurante próximo
a um shopping e, sem querer, achamos aquele restaurante que a gente não encontrava
e que estava recomendado no guia. Achamos!
Taxi
em Montevidéu é difícil... imagina com chuva! Taxi em Montevidéu tem um vidro
que separa passageiros do motorista... e tem uma “gaveta” na qual você “enfia”
o dinheiro ao pagar a corrida. Só em “pesos” uruguaios.
Muita
chuva, poucos taxis. Combinei com minha mulher: quando o taxi chegar, entre no
banco de trás que eu entrarei no banco da frente, assim a gente se molha menos.
E
assim, foi: sentei no banco da frente. A chuva batendo.. e minha mulher lá, no
banco de trás, atrás do vidro, isolada. No banco da frente, ouvi uma música,
volume muito baixinho... então perguntei ao chofeur, em portunhol:
-
Que estás ouvindo?
-
Schubert. – Respondeu ele, e completou -
Prefiro Mozart, pero...
Não
sou muito fã de Schubert, disse ele. Nem eu, disse eu. Como aquele colega
trabalhador motorista de taxi, eu também prefiro Mozart. A partir daí, a chuva
forte, o chofeur e eu falando sobre
música. Pouco se enxergava, mas continuávamos rumo a nosso destino. Ele
entendia tudo de música clássica. Seu pai fora músico e ensinou-lhe como
apreciar. Nos deleitamos falando de Mozart, nosso ídolo. Ele fazendo o percurso,
feliz da vida por poder conversar com alguém que compartilha sua paixão, Mozart,
e eu também... mais feliz ainda!
Perguntei
se ele sabia de onde vinha a palavra “taxi”, já que trabalhava nisso e era seu
“meio-de-vida”. Imediato e enfático, respondeu: “SIM!”
E
contou-me toda a história que eu já sabia, mas que ouvi com extrema atenção e
respeito porque, sem dúvida, ele é muito mais digno de contá-la do que eu.
Segue a história:
“Naquela
época, à época de Mozart, músicos e compositores eram considerados meros instrumentos do Estado, serviam
apenas para deleitar o rei e distrair o povo.
Para
sobreviver, compositores tinham que se submeter e vender seus trabalhos, daí a importância de ser Kepellmeister, pois sendo o mestre do rei, mais prestígio se teria
e, portanto, mais se poderia cobrar.
Em
Viena havia um barão muito rico. Ele alugava coches ou charretes. As pessoas que queriam ir a uma ópera ou a um
concerto da corte, tinham que fazer isso em grande estilo. Porém, muitas
famílias não tinham condições financeiras ou de espaço para manter uma charrete,
uma carruagem ou um coche. Percebendo
isso, esse barão passou a alugar
coches para aquelas pessoas que queriam ir ao concerto do rei e que não podiam chegar lá a pé. Questão de imagem!
Esse
barão tinha uma filha e ela completaria quinze anos em breve (lembram da
tradição das debutantes?). Ora, para
todas as ocasiões especiais, mandava a tradição e o ritual da corte que se fizesse
“algo especial”, enfim, que o pai encomendasse
uma peça, uma música, que seria a
marca daquela cerimônia. No caso, uma adolescente que está se tornando mulher.
Mozart
fez muito isso, para sobreviver. Até música para circenses ele fez! Bem, Mozart conseguiu ser contratado para fazer
a peça de debutante da filha daquele
barão riquíssimo e nobre! E não fez por menos.
Mozart
criou uma música que, até hoje, é citada como uma das maiores maravilhas do
mundo: Eine Kleine Nachtmusik. Isso
significa, numa tradução literal, “um tipo de música noturna”. Já, numa tradução
livre, seria: “uma musiquinha na noite”. Que “musiquinha”, hein?”
Tenho
certeza que qualquer pessoa que ouvir apenas a introdução, vai identificar: https://www.youtube.com/watch?v=Ytpj0lg5Cmk&list=RDYtpj0lg5Cmk#t=0
Não
terminou ainda! Imagine que você esteja saindo de casa para assistir a um
concerto de Mozart. Imagine que você vai pegar um taxi... você tem que pegar um
taxi para ir a um concerto no centro da cidade! Imagine que esse concerto seja
a obra Eine Kleine Nachtmusik e você
reclama porque não consegue achar um taxi. Pergunto: sabe por que esse veículo
que você está esperando ansiosamente e do qual você precisa tanto, se chama taxi? Talvez nem o próprio motorista saiba.
Pois
bem, você só vai chegar a esse concerto (Eine
Kleine Nachtmusik), com toda a sua pompa
e circunstância (Elgar), usando aquele motorista de taxi. Ele só está ali
para levá-lo onde você quiser. Pois aquele barão que encomendou aquela música a
Mozart, para sua filha que fazia 15 anos, que alugava carruagens e coches, que
fazia parte da corte... se chamava Barão
Von Taxi! Por isso, em qualquer
parte do mundo que você esteja, “taxi” é uma palavra universal, por causa
daquele Barão! Mas, sobretudo, por causa de Mozart, que nem viveu o suficiente
para saber disso.”
E
chegamos.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Todos são um só
(Óscar Fuchs)
-Estive pensando, Iahvéh, acho
que seus seguidores são magrinhos porque não comem carne de porco.
- Ora, Deus, não é bem assim.
Veja o Buda aqui, bem gorduchinho e é vegetariano.
- Pois é. Se comendo só vegetais
já sou assim, fofinho, imagina se comesse carne como os não-budistas.
- Olha o colesterol, Buda!
- Vira essa boca pra lá, Alá.
- O Alá adora quibe cru e tabule.
- Ah, me dá água na boca, Iahvéh:
Quibezinho cru, um pãozinho árabe, um azeite extra virgem... mmm...
- Lembrei agora, Deus, por falar
em “virgem”...
-Nem toque no assunto, Baal.
Erro de tradução: “traduttore, traditore”.
- Bem sei. Estava escrito em
hebraico e só os seguidores de Iahvéh, meus seguidores, entendiam o sentido
real da palavra “virgem”.
- Já o Baal aí entende tudo de
virgens.
- Que é isso, Buda? Acusação
agora? Era só um ritual! Virgens
defloradas no templo de Baal... Também não era bem assim. Pior é Deus aí,
um pai desnaturado que sacrificou o próprio filho.
- Êpa lá, êpa lá! Não me julguem
sem saber de toda a história. Ele é Eu
mesmo, ele é Ele mesmo e ainda é o Espírto Santo. Três vidas! Ele ainda tá
bem no vídeo game.
- Bobagem, ele nem existiu.
- Ô, Iahvéh, não vamos começar de
novo com essa discussão se meu filho
existiu ou não existiu.
- É isso aí, vamos ficar zen. Ponham-se na posição de Buda, como
estou fazendo. Ai! Não consigo mais dobrar a perna, vou ter que perder uns
quilinhos...
- Usa aqueles panos cor de
laranja que teus seguidores usam. Pra esconder as gordurinhas aquilo é uma
maravilha.
- Agora não dá mais, meu amigo
Alá. Já me retrataram assim... e imagem é
tudo. Já falei com os marketeiros, mas eles disseram que...
- Foi o que disseram meus
assessores de marketing.
- É, os meus também.
- E os meus, idem.
- É muito marketing. Dia desses um deles confundiu hindus com budistas. Seria a mesma coisa que confundir judeus com
cristãos só por causa do Velho Testamento. E os seguidores incautos, coitados... são cruéis.
- Mas, pensando bem, eles foram
mais cruéis comigo.
- Acha mesmo, Deus? Por que?
- Ah, Iahvéh, eles resolveram:
vamos retratar Deus! E, pronto: me pintaram com essa túnica branca. Qualquer
pneuzinho na barriga parece um pneu de trator. Se ainda fosse uma cor mais pastel... pelo menos disfarçaria um
pouquinho.
- Alguns de meus seguidores só
usam preto... até o chapéu.
- Básico, pretinho básico! Agora,
sacanagem mesmo, fizeram comigo: gordo desse jeito e me retrataram pelado,
sentado e bochechudo. Não há Buda que convença com essa imagem!
- Ainda bem que não me
retrataram.
- É mesmo. Por que seus
seguidores não te retrataram, Alá?
- Ah, fui esperto. Eu disse a
Maomé: sem retratos! Sem retratos!
Sabe-se lá o que eles inventariam.
- É, eu devia ter feito isso com
meus Cristãos... mas na hora, nem atinei.
- Viram o que fizeram com os
Deuses do Egito? Eu estou pelado e gordo, mas pelo menos ainda sou...
digamos... “normal”. Você está de túnica branca que mostra seus pneuzinhos, mas
pelo menos é “normal”. Porém, aqueles pobres Deuses do Egito...
- Nem me fale. Por isso eu não
quis ser retratado. Misturaram corpo de gente com cabeça de pássaro, corpo de
gente com cabeça de chacal... tem um que tem cabeça de jacaré! Virgem Santa!
- Já pedi para não tocarem nesse
assunto de virgem.
- Desculpe, Deus, saiu sem
querer.
- O Iahvéh também não tem
retrato, tem?
- É, não tenho. Mas, pagando
bem... que mal tem? Desde que não seja retratado como os egípcios, sempre de
perfil... Esse meu nariz adunco não me favorece.
Nesse instante alguém dá três
batidinhas na porta e pergunta:
- Senhor Deus, está tudo bem aí?
- Sim, está.
- É que vos ouvi conversando e...
- Fique tranquilo. Só estava
falando comigo mesmo.
¹ Se preferir, mude o nome de Deus para SEU Deus nos quatro
últimos parágrafos. Dará na mesma, afinal, são todos um só.
² Sugiro a leitura do conto Os nove
trilhões de nomes de Deus, de Arthur C. Clarke, escrito em 1953. (http://letras.cabaladada.org/letras/nove_trilhoes_nomes.pdf)
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Soterrados na Caverna
(Óscar Fuchs)
Lembram daqueles filmes de nossa infância em que uma turma de aventureiros chegava a uma ilha deserta... ou a um paraíso oculto... ou a um oásis ... era sempre deserto e desconhecido. Então, lá, encontravam uma caverna com milhares de diamantes, muita riqueza... para o resto da vida! Mas eles sempre queriam pegar mais do que podiam levar... e a tal da caverna desmoronava e soterrava a todos.
Vi dois filmes ontem: um deles é Boyhood (a tradução seria criancices, infantil, molecagens... enfim, coisa de guri!) e o outro, Garota
Exemplar (Exemplar girl). O personagem de “Criancices!”, um garoto, diz uma frase magnífica: (não memorizei as
palavras, só lembro do conceito) Durante
anos a humanidade quis construir
robôs, escravos que não contradiziam nossas ordens. Porém, políticos, economistas
e empresários perceberam que seria muito mais fácil e econômico transformar os humanos em robôs. Melhor
que gastar milhões de dólares para fabricar algo novo (um robô obediente e
condicionado) seria condicionar o povo, as pessoas, enfim... CRIAR
robôs! Assim, somos todos robôs nessa
humanidade. Mas, pergunto, que “humanidade” é essa, se somos todos robôs!?
Já em Garota Exemplar
(o filme), a teoria do garoto de boyhood
é comprovada: a mídia manda na vida.
Por quê? Lá vamos: o meio que “inventaram”
para nos transformar em “robôs”, foi a mídia. Ora, se todos somos iguais e
pensamos a mesma coisa... e assistimos a mesma coisa... e compramos as mesmas
coisas... e usamos as mesmas coisas... e fazemos as mesmas coisas... e SOMOS a mesma coisa... e ACREDITAMOS na mesma coisa... Céus! Somos
todos iguais!
Em Garota Exemplar
(o filme) a personagem usa essa “cegueira” e a ansiedade por manchetes e
repercussão... e fama... e mídia... para
cometer seus crimes. E a personagem consegue. E consegue COM O APOIO E RESPALDO DA MÍDIA. Não conto o final. Mas lembro
daquela belíssima crônica do García Márquez, em que ele dizia nas primeiras páginas como tudo havia acontecido...
mas a gente tinha que ler tudo, até o final, a gente QUERIA ler todo o livro
pra saber como aquilo tudo tinha acontecido (CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA, Gabriel García Márquez).
Assim, somos: a gente já sabe onde vai parar... onde vamos
terminar... os erros que cometemos... quão bobos somos... Mas a gente quer
comprovar isso, a gente quer ter certeza disso... e acabamos com aquele monte de diamantes no
colo... soterrados na caverna.
(Sei,
sim! Lembraram do George Orwel (O Grande
Irmão), ou Fahrenheit 451, do Truffaut...
pois é, “estou sobre os ombros de gigantes...”, Newton)
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