quarta-feira, 8 de maio de 2019
segunda-feira, 1 de abril de 2019
Aos dubladores
A gente sabe que dublagem não é fácil. Ter que
combinar os movimentos da boca e todos os outros gestos a uma fala estrangeira
requer muita competência. Por isso, talvez, algumas dublagens deixam a desejar.
Dia desses vi um filme em que o personagem chegava correndo a
uma estação do metrô. Ele apontava para o túnel de onde saiam os trilhos e
gritava para seu colega:
─ Tem um trem! Tem um trem!
A cena ficou ridícula. O que o personagem esperava que viesse
daquele túnel com aqueles trilhos de trem, um camelo?
No original, a
fala seria Take the train! Take the
Train! (Pegue o trem! Pegue o trem!), mas o dublador tinha que
adequar a fala ao movimento. Ou o roteirista da dublagem não tinha imaginação.
De qualquer forma, a estória não era tão boa.
Há, porém, falhas de dublagem recorrentes e que machucam os
ouvidos quase todos os dias. A que optei por denunciar é a da maldita “serra
elétrica”. Penso que, na verdade, o erro nem começou com os dubladores e sim
com os tituladores de filmes.
Em “O Massacre da Serra Elétrica” ─ que tanto pode ser
classificado como um filme de terror, ou como um terror
de filme ─ o erro já começa na tradução do título. Pra você que perdeu duas
horas de sua vida assistindo a esse filme, pergunto: viu algum fio elétrico
saindo da serra? Não, né? E, se houvesse esse fio, como o vilão perseguiria
aquele bando de idiotas sem se enrolar? Eu me enrolo todo no fio do aspirador
de pó, que só tem três metros!
Imagina o terrível assassino da serra chegar ao local do
massacre e sair andando de lado, ao longo das paredes, com o fio da serra
elétrica na mão e procurando:
─ Cento e dez... cento e dez... cento e dez... Cadê a tomada
duzentos e vinte, pô!
Ou se, no momento do massacre, a serra só emitisse um puf...puf...puf e de repente ele percebesse que tinha ligado
na tomada errada?
Imagino,
então, que os dubladores tenham embarcado na mesma onda dos tituladores, para
quem qualquer serra é uma serra elétrica.
Desembarquem, dubladores.
Assisto documentários de desbravadores, daqueles que vivem em
lugares remotos, onde é indispensável uma serra. Porém, todas as vezes que
dublam ou narram o uso de uma serra, dizem que a serra é elétrica. Não é!
O lugar é remoto, portanto, não há energia elétrica por
perto. A eletricidade mais próxima, se houver, está há dez quilômetros de
distância e vem de um gerador. O desbravador está lá no círculo polar ártico,
no meio da neve, dentro de uma floresta que tem a extensão de quase todo o
Alasca e, quando vai derrubar uma árvore, o dublador coloca em sua boca:
─ Preciso ir até meu trenó pegar a serra elétrica.
E eu pergunto: vai ligar em qual tomada!?
Naqueles programas em que constroem cabanas no meio do nada
acontece o mesmo. De repente alguém grita lá do telhado:
─ Ei, Scot! Me alcance a serra elétrica!
Quantos quilômetros de fio seria preciso para chegar a essa serra elétrica?
Dubladores, a título de contribuição, explico: o que usam
nesses lugares não são serras elétricas, mas motosserras. A motosserra é uma
serra com motor a combustão, que funciona com gasolina, como um motor de
motocicleta ou de barco. É específica para lugares remotos e isolados, pois só
é preciso levar um ou dois galões de combustível para fazê-la trabalhar.
Até entendo a explicação de que a palavra motosserra não se encaixa nos movimentos
labiais do personagem, só que serra
elétrica não se encaixa nem nos movimentos labiais, nem na lógica.
Portanto, lanço uma campanha. Deve haver uma dezena de
palavras e expressões que combinem com os movimentos labiais dos personagens e
que deem o sentido de motosserra.
Quem souber, descobrir ou inventar uma dessas, por favor, contribua: envie para
os dubladores!
Se não corrigirem isso logo, poderá haver
um massacre de motosserra. E esse, não
ficção.
sexta-feira, 29 de março de 2019
segunda-feira, 25 de março de 2019
Figurinha
Óscar Fuchs
O Armando sabia perfeitamente que quando
uma mulher diz uma coisa, na verdade quer dizer outra. Se uma mulher diz “Ai,
tô horrível hoje!”, ele sabe que ela está dizendo “Me elogia, vai!”. Não é à
toa que sempre foi o maior conquistador da turma: sabia perfeitamente o que as
garotas queriam dizer e o que queriam ouvir. Ele treinou para isso a vida toda,
para interpretar as mulheres. Até o
dia em que conheceu a Janete.
Armando já estava naquela idade em
que se definia como um “coroa apetitoso” e em que se considerava um intérprete infalível
das frases femininas. Janete tinha a
mesma idade e tiveram uma conversa rápida quando se conheceram no lançamento de
um livro. Depois de alguns olhares trocados, ele se aproximou sorrindo:
─ Espero que gostemos. ─ Disse, na
fila de autógrafos.
Ela virou-se como se não o tivesse
notado ali às suas costas, mas ele sabia que fingir surpresa é um dos artifícios
femininos.
─ Vou gostar, com certeza. ─ Respondeu
Janete ─ Já li os dois anteriores.
Quando ele fingiu-se impressionado e
disse que ela parecia uma leitora voraz, ela explicou que estava lendo mais nos
últimos tempos. Armando interpretou que ela estava sozinha e passava mais tempo
em casa, lendo.
Alguns dias depois, por acaso ou não,
tiveram outro encontro casual. Trocaram telefones:
─ Mas não me liga ─ pediu ela ─,
manda wats . Correria de trabalho,
entende?
Ele entendia, mas sabia que não era
isso. Na verdade ela não queria ser pega de surpresa, queria pensar bem antes
de responder a ele.
Armando mandou o watts:
─ Que tal um café... um vinho... ou qualquer...
outra coisa?
Perfeito, pensou. Convidativo, bem
humorado, insinuante e o mais importante: provocativo. Da resposta poderia tirar várias conclusões,
só analisando o que ela escrevesse. Mas ela não escreveu. Em vez disso, mandou
uma figurinha. O desenho de uma moça com as mãos espalmadas para cima, com os
ombros encolhidos e que tanto poderia significar talvez, como você que sabe
ou prá quê?.
Tentou outro wats, mais objetivo, onde perguntava apenas topa? E ela respondeu com a figurinha de uma piscadela. O que
significaria essa piscadela? Perguntou-se. Terceira tentativa, outra pergunta e
veio outra figurinha: uma carinha de surpresa. Indecifrável, pensou.
Há três meses Armando vem tentando
interpretar a Janete, mas só recebe figurinhas dúbias. Está tenso, anda
inquieto, ansioso. O que fazer agora? Começar tudo de novo? Anos e anos
compilando mentalmente o sentido das respostas femininas, pra nada! A essa altura
da vida terei que estudar uma nova linguagem?
E enviou a ela a figurinha mais
enigmática que conseguiu encontrar, um pouco por vingança, um pouco por
provocação. Quem sabe agora ela manda uma resposta civilizada, pensou.
segunda-feira, 11 de março de 2019
Zodíaco
Não se conheciam, se encontraram, assim, numa noite qualquer,
num bar, por acaso:
─ Oi, sou o Gerson.
─ Oi. Sou a Andréa.
─ Quer beber alguma coisa, Andréa?
─ Não sei...
─ Que tal um Martini?
─ Eu tava pensando nisso, mas...
─ Então, que tal uma cerveja?
─ Você vai beber o quê?
─ Cerveja.
─ É, cerveja ia bem.
─ Então, duas cervejas.
─ Mas... acho que vou no Martini, Gerson.
─ Ok, um Martini e uma...
─ Tô indecisa...
─ Ãhã... indecisa...
─ Isso.
─ Entre Martini ou cerveja?
─ É. O que você acha?
─ Olha, acho que... não tem muita importância
pra esse momento, entende?
─ Tá, cerveja.
─ Duas cervejas, então.
─ Me diz, Gerson, qual é teu signo?
─ Aquário.
─ Uhm...que legal! Gosto de aquário por que são sempre do
contra.
─ Não concordo.
─ Tá vendo?
─ É. Mas tive que discordar.
─ Pois é, qualquer coisa que a gente diga, o aquariano
discorda.
─ Discordo.
─ Eu sei. Vocês, aquarianos, não acreditam em nada do que a
gente diz.
─ Isso não é verdade.
─ Tá vendo?
─ Tá bem... acontece que tudo o que vocês dizem sobre os
aquarianos, nem sempre é verdade.
─ Eu disse uma verdade agora. E a sua resposta foi uma prova.
─ Que prova? Isso não é uma prova, é uma suposição!
─ Razão e suposição. Vocês sempre acham que estão com a
razão.
─ Peraí. Até agora você só falou “eu acho”, “talvez”,
“suponho”, “às vezes”...
─ E daí?
─ “E daí” que você não é definitiva em nada!
─ Como assim?
─ Você não é objetiva, direta, assertiva, específica!
─ Acho que sou.
─ Tá vendo? Até nisso, você “acha”.
─ Questão de opinião, só isso!
─ E qual sua opinião?
─ Depende. Sobre o quê?
─ Sobre... sobre o que a gente estava discutindo?
─ Deixa eu pensar... ih, não lembro.
─ Nem eu. Tá, esquece. Vamos começar tudo de novo.
─ Tá bem, Gerson.
─ Não. A gente ainda não se conhece, então você ainda não
sabe meu nome.
─ Ah, tá bem.
─ Tô chegando. Você não me conhece. Oi, sou o Gerson.
─ Oi, sou a Andréa.
─ Oi, Andréia... qual seu signo?
─ Êpa... você tinha que me perguntar o que eu queria beber!
─ Por que? Quando?
─ Ah, entendi, desculpe. Nada aconteceu, é tudo novo, ok. Meu signo? Sou Gêmeos.
─ Típico.
─ O que quer dizer?
─ Por isso você nunca tem opinião, fica sempre entre uma e
outra...
─ Ei, a gente não combinou de “começar tudo de novo...”?
─ E começamos!
─ Então, por que você está usando coisas do tempo que a gente
ainda nem se conhecia?
─ Se a gente não se conhecia, como poderia saber disso, saber que eu sei, hein?
─ Ah, não! Não me venha com essa racionalidade!
─ Tá bem, esquece tudo, a gente nunca vai se entender mesmo.
─ Ah,é? E depois disso tudo, como é que vou te esquecer?
─ Hein?
─ Vai ser impossível, né?
─ Viva! Finalmente você disse algo afirmativo, objetivo,
direto!
─ Meu bem, eu já tinha dito algo...
─ Não fala nada! Vamos sair daqui, vamos pra onde só exista a
gente, onde possamos ficar sozinhos, pelados, felizes e livres!
─ Mmmmm... Legal!
─ Gostou, né?
─ Tô pensando.
sábado, 9 de março de 2019
Narração profissional
Chegando o carnaval, lembrei do incidente cômico de uma viagem que fizemos, aproveitando os feriados. Dois casais, cinquenta minutos até o aeroporto de Florianópolis, bagagem para cinco ou seis dias.
No mesmo voo está o conhecido narrador esportivo Armindo Antônio Ranzolin e a família. Apesar da viagem ser curta e rápida, na chegada a correria é geral. Claro, feriados e Floripa combinam e convidam. A ansiedade aflora.
Do desembarque até a esteira de bagagens, todos os passageiros naquele passinho apressado de gueixa, quando a gente tá correndo sem querer mostrar que está correndo. A esteira está contornada de gente louca pra aproveitar as praias e os dias de folga.
Malas, bolsas e mochilas começam a surgir daquela janela que parece a entrada de uma casinha de ratos e vão sendo resgatas aos poucos. Vem minha mala, eu pego. Vem outra mala das nossas, eu pego. Outra, pego. Só falta a bolsa da nossa amiga.
Lá no início da esteira, por onde as malas chegam, se posiciona o Ranzolin, atento. De repente, com aquela voz de trovão dos locutores de futebol, ele grita de lá:
- Olha, gente, tá passando um soutien que deve ter caído de uma mala.
Risadas, algumas gargalhadas e todos na expectativa, atentos à trajetória do soutien solitário, desfilando na esteira. Qual das mulheres da fila pegaria a peça íntima? Mas o soutien faz toda a volta e não é resgatado.
- Ahhhhh... – Ecoa o lamento de uma turminha de rapazes que já está no clima de carnaval.
Com certeza, a delicadeza com bagagens,que é típica dos funcionários de companhias aéreas, rasgou ou arrebentou o fecho da bolsa, espalhando seu conteúdo. O soutien retorna para outro desfile e se renova a expectativa. Todos os olhos o seguem. E então:
- Agora veio uma calcinha! – Brada o Ranzolin lá do canto.
Todos se viram naquela direção. Surge um novo elemento.
- Agora vai! – Diz um daqueles rapazes.
Mas, outra vez, a frustração:
- Ahhhhhh.... – Lamentam.
Ninguém pega as peças. Agora são uma calcinha e um soutien dando voltas e todos rindo. Eis que:
- Outra calcinha, pessoal! – Anuncia Ranzolin.
A esposa lhe dá um tapinha nas costas, repreendendo-o por estar chamando a atenção para algo que deixa qualquer mulher constrangida. Ele se justifica, só queria ajudar!
Então começam a surgir várias peças íntimas, espalhando-se esteira afora e, cada uma delas, sendo narrada por Ranzolin como se estivesse anunciando a escalação de um Grenal.
Nossa amiga dá um beliscão no marido que estava se divertindo com a situação e lhe diz entredentes:
- Pelo amor de Deus, faz aquele homem calar a boca!
- Ué, por que? – Pergunta ele ainda esfregando o braço ardido do beliscão.
- Porque essas calcinhas são minhas! – Diz ela, raivosa.
Mas ela própria percebe que não há como fazer “aquele homem calar a boca” e, conformada, constrangida e irada, puxa sua bolsa com força da esteira e começa a catar as calcinhas e soutiens que lentamente circulam.
Aos poucos as pessoas vão pegando suas malas e deixando a esteira, enquanto a gente espera para ter certeza de que nenhuma outra calcinha apareça.
Toda vez que penso em futebol, lembro dessa amiga que, mal ou bem, teve suas calcinhas e soutiens narrados por um dos maiores locutores do Brasil. É de se orgulhar!
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